Da primeira viagem de um ônibus amarelo à consolidação de uma metodologia de arte-educação reconhecida nacionalmente, a Rádio Margarida celebra 35 anos transformando cultura, comunicação e educação popular em instrumentos de promoção dos direitos humanos.

Na manhã de 20 de julho de 1991, um ônibus amarelo, restaurado, saiu de Belém rumo ao distrito de Mosqueiro. Nas janelas, bonecos de manipulação. No teto, alto-falantes. Dentro dele, artistas, educadores, jornalistas, poetas, locutores, mecânicos, pintores e auxiliares de oficina compartilhavam muito mais do que uma viagem: levavam um sonho.

Pelas ruas e estradas, o veículo despertava curiosidade. Pessoas acenavam, sorriam e perguntavam: "Que ônibus é esse? Que rádio é essa?". Sem saber, testemunhavam o nascimento de uma experiência que, 35 anos depois, se tornaria uma das mais reconhecidas iniciativas de arte-educação da Amazônia.
Naquele dia, ecoava pelos alto-falantes uma mensagem que sintetizava o espírito da iniciativa:
"Eleve sua frequência e deixe o coração se alegrar! (...) Ligue sua antena celestial, sintonize na estação da luz. E curta a Rádio Margarida, a boca dos corações."
A primeira viagem da Rádio Margarida inaugurava uma forma diferente de dialogar com as pessoas. Uma forma de atuação baseada na convicção de que a arte podia aproximar, ensinar, sensibilizar e fortalecer a cidadania.
Um sonho que nasceu da inquietação diante da realidade
A história da Rádio Margarida começou antes da primeira viagem.
No início da década de 1990, o assistente social e professor da Universidade Federal do Pará, Osmar Pancera, concluía seu mestrado em Saúde Pública e refletia sobre os desafios vividos por Belém. A cidade reunia extensas áreas de baixada, marcadas pela ausência de saneamento básico, elevados índices de mortalidade infantil e profundas desigualdades sociais. Ao mesmo tempo, pulsava em uma intensa riqueza cultural, expressa nas festas populares, no Círio de Nazaré, nas manifestações artísticas e na força das comunidades.
Foi desse encontro entre a realidade social e a potência da cultura que surgiu uma pergunta transformadora: como fazer com que a informação chegasse às pessoas de maneira acolhedora, participativa e acessível?
A resposta apareceu durante um trajeto cotidiano entre sua casa e a Universidade Federal do Pará.

Na então República do Pequeno Vendedor, organização que hoje é reconhecida como Movimento República de Emaús, o professor Osmar avistou um antigo ônibus amarelo colocado à venda. O apoio do Padre Bruno Sechi, cuja trajetória de defesa dos direitos humanos se entrelaça, permanentemente à história da Rádio Margarida.
"Confesso que foi amor ao primeiro olhar. Ali mesmo passei a imaginar que os sonhos precisam de meios, mãos e veículos de ligação para se tornarem reais", recorda Osmar Pancera.

O veículo foi restaurado e transformado em muito mais do que um ônibus. Tornou-se palco, estúdio, sala de aula, teatro, emissora itinerante e símbolo de uma organização que faria da estrada um caminho para a cidadania.
Um nome carregado de significado
Nada na Rádio Margarida nasceu por acaso.

A palavra Rádio representa a capacidade de irradiar cultura, conhecimento, música, alegria, informação e diálogo. Não se refere apenas a um meio de comunicação, mas ao movimento permanente de fazer as ideias circularem e alcançarem pessoas, comunidades e territórios.
Já Margarida é uma homenagem de Osmar Pancera à sua mãe, Margarida Gavranich Pancera, e, ao mesmo tempo, a todas as mães. Representa o cuidado, o afeto, a proteção e a força das relações humanas. É uma homenagem ao amor que une mães e filhos e um reconhecimento da dimensão transformadora desse vínculo.
Assim nasceu a Rádio Margarida: uma organização que reúne movimento e afeto, comunicação e cuidado, arte e compromisso social.
Quando a arte se transforma em cidadania
Desde sua origem, a Rádio Margarida compreendeu que falar sobre direitos exige mais do que transmitir informações.

Era preciso criar experiências capazes de envolver as pessoas.
Por isso, teatro, teatro de bonecos, música, rádio, vídeos, performances, gincanas, jogos educativos, oficinas de arte, espetáculos e atos-show passaram a integrar uma metodologia própria de educação popular, construída coletivamente na Amazônia.
Na Rádio Margarida, a arte nunca foi um fim em si mesma. Tornou-se linguagem, ponte e instrumento de diálogo, capaz de fortalecer comunidades, ampliar a participação social e aproximar pessoas de seus direitos.
Temas como saúde pública, saneamento básico, meio ambiente, proteção integral de crianças e adolescentes, enfrentamento das violências, educação, cidadania e participação social passaram a ser vivenciados de forma criativa, sensível e acessível.
Essa forma de atuar parte de um princípio que acompanha a organização desde sua fundação: a transformação social nasce da solidariedade, da educação e do compromisso coletivo.
Uma metodologia construída na Amazônia

Ao longo de 35 anos, a Rádio Margarida consolidou uma metodologia própria de arte-educação inspirada na educação popular e profundamente conectada à realidade do território amazônico.
Cada ação busca promover o diálogo, a escuta, a valorização dos saberes locais e o protagonismo das pessoas. Mais do que apresentar espetáculos, a organização desenvolve processos educativos que fortalecem comunidades, estimulam a participação social e aproximam cidadãs e cidadãos das políticas públicas.
Em um território marcado por grandes distâncias geográficas e por profundas desigualdades no acesso à informação e aos serviços públicos, a Rádio Margarida transformou a mobilidade em estratégia educativa. Enquanto muitas iniciativas aguardavam que o público chegasse até elas, a organização escolheu percorrer rios, estradas e comunidades, fazendo da Amazônia não apenas seu espaço de atuação, mas também a principal inspiração para construir uma forma própria de promover a educação popular.
Essa metodologia permitiu que a organização atuasse em mais de 130 municípios paraenses, alcançando milhares de comunidades ribeirinhas, quilombolas, assentamentos, comunidades tradicionais, escolas e territórios de difícil acesso, impactando milhões de pessoas ao longo de sua trajetória.
Em cada território visitado, a metodologia da Rádio Margarida foi adaptada às realidades locais, respeitando os saberes das comunidades e reconhecendo a cultura amazônica como ponto de partida para a promoção da cidadania, da participação social e da garantia de direitos.
Uma história construída por muitas mãos
A história da Rádio Margarida nunca foi construída sozinha.

Desde os primeiros anos, importantes instituições acreditaram na proposta e contribuíram para ampliar seu alcance, entre elas a Universidade Federal do Pará, a Secretaria Estadual de Trabalho e Promoção Social, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e inúmeras organizações públicas, privadas e da sociedade civil.
Também caminharam ao lado da instituição pessoas cuja dedicação aos direitos humanos deixou marcas profundas na Amazônia, como Padre Bruno Sechi e Irmã Marie Henriqueta (in memoriam), referências permanentes de compromisso com a dignidade humana e a justiça social.
Ao longo dessa trajetória, a Rádio Margarida também recebeu mais de dez premiações e reconhecimentos nacionais concedidos por instituições como UNICEF, Itaú, UNESCO, CUFA, Neide Castanha e Banco do Brasil.
Entre esses reconhecimentos, destaca-se a seleção da experiência da Rádio Margarida pela UNESCO para integrar a publicação Cultivando Vida, Desarmando Violências – Experiências em Educação, Cultura, Lazer, Esporte e Cidadania com Jovens em Situação de Pobreza, lançada em 2002, reconhecendo a contribuição da organização para a promoção da cidadania por meio da arte e da educação.
Reinventar-se para continuar transformando

Ao longo de três décadas e meia, a Rádio Margarida ampliou suas linguagens, incorporou novas tecnologias, fortaleceu parcerias e desenvolveu projetos voltados à promoção dos direitos humanos, da saúde, da educação, da proteção da infância, da sustentabilidade e da participação cidadã.
As linguagens continuam se renovando, mas a essência permanece a mesma: transformar informação em diálogo, arte em participação e conhecimento em cidadania.
Trinta e cinco anos depois daquela primeira viagem, a organização segue presente em diferentes territórios amazônicos, desenvolvendo projetos que fortalecem redes de proteção, promovem a defesa dos direitos de crianças e adolescentes, valorizam a diversidade cultural e estimulam comunidades a construírem coletivamente soluções para seus próprios desafios.
Trinta e cinco anos depois...
Aquele ônibus amarelo continua sendo uma das imagens mais fortes da memória da Rádio Margarida.
Ele simboliza a certeza de que os sonhos precisam de pessoas dispostas a caminhar juntas.
Representa a convicção de que a educação popular acontece no encontro entre diferentes saberes.
E lembra que a arte pode ser uma poderosa ferramenta para transformar realidades.

Para o fundador da Rádio Margarida, Osmar Pancera, celebrar 35 anos de história é reconhecer a força dos princípios que deram origem à organização e que continuam orientando sua atuação.
"Ver a Rádio Margarida completar 35 anos representa a confirmação de que valeu a pena acreditar em princípios, em bons propósitos e na possibilidade de contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas. É uma história construída com força, resistência, competência e honestidade.
O maior legado da Rádio Margarida são os bons serviços prestados com amor, alegria, dedicação, arte, cultura e educação. Tudo o que realizamos sempre teve como propósito aproximar as pessoas dos seus direitos e fortalecer a cidadania.
A todas as pessoas que fizeram e fazem parte dessa caminhada, deixo um convite: ponha asas na sua imaginação, ofereça uma flor, cante uma canção. Rádio Margarida, a boca do seu coração. Rádio Margarida... se ligue nesta estação."

Para a coordenadora geral da Rádio Margarida, Nayara Lima, os 35 anos da organização representam a força de uma história construída coletivamente e o compromisso permanente com a transformação social por meio da arte-educação: “é celebrar todas as pessoas que acreditaram e seguem acreditando que a arte pode transformar vidas. É uma história feita de afeto, coragem e compromisso com a Amazônia e com os direitos humanos. Temos muito orgulho desse caminho e seguimos com o coração aberto para construir os próximos capítulos dessa trajetória, sempre ao lado das comunidades e das pessoas que dão sentido à nossa missão.”